Se você passou o último domingo no Posto 9 de Ipanema, provavelmente notou: a sunga tradicional está em todo lugar. Não como exceção de surfista ou veterano dos anos 80. Como escolha normal de homens entre 25 e 45 anos que, há pouco tempo, só apareciam de boardshort até o joelho.

Conversamos com Seu Geraldo, que vende peças na areia há vinte e dois anos, entre o Posto 6 e o Arpoador. “Boardshort ainda sai, mas sunga lisa vende em dobro”, ele disse. “O rapaz quer nadar, jogar altinha e não ficar com meio quilo de tecido molhado na cintura.”

O boardshort não morreu — só dividiu o território

O boardshort comprido continua forte em famílias e em quem prefere mais cobertura. O que mudou é a hierarquia: a sunga deixou de ser “ousada demais” para virar opção prática. O empurrão real veio do retorno às atividades na água e da fadiga com peças que demoram a secar.

Em Leblon, observamos três grupos numa manhã de sábado. Jovens com sunga estampada em tons terrosos; profissionais de 35+ com modelos lisos; turistas latinos copiando o visual local. Nenhum cenário parecia trend de passarela. Parecia praia funcionando.

Tecido, elasticidade e a prova do mar

Fabricantes citam dois pedidos: poliamida com elastano que recupere a forma depois do sal e cós que não vire borracha em duas temporadas. Sunga barata de feirinha ainda desbota, mas o consumidor carioca ficou mais exigente.

Há também a questão do tamanho. Sunga mal ajustada é desconforto público. Vendedores trabalham com tabela ampla porque devolução na areia não existe. A dica que mais se repetiu: testar agachamento antes de entrar no mar.

Estampa ou liso? O Rio responde

Liso domina entre quem trabalha em escritório e desce pra praia no fim da tarde. Estampa tropical volta nos fins de semana de festa. O que parece ter saído é o logo gigante e a estampa de time europeu.

Em Copacabana, a sunga divide espaço com bermuda de tactel. Em São Conrado, modelos um pouco mais altos na perna reaparecem pelo surf de fim de semana.

O que vem pela frente

Projetamos que o verão 2026/27 mantenha a sunga em alta, com cintura média e alta. A cintura ultra baixa dos anos 2000 não voltou. O recado da areia é outro: menos pano, mais movimento.

Se você está repensando o guarda-roupa de praia, comece pelo básico: uma sunga lisa escura, uma estampada para domingo, e boardshort se ainda for sua praia. O Rio não está julgando — está nadando.

Na semana seguinte, voltamos ao mesmo trecho da areia no fim da tarde. O movimento se repetia: pai com sunga lisa, filho adolescente ainda resistindo ao boardshort longo, vendedor ambulante oferecendo três por cinquenta. Nada de liquidação fictícia — só o comércio honesto de quem sabe que janeiro paga as contas de fevereiro.

Uma leitora nos escreveu perguntando se “sunga de veludo” ainda existe. Existe, mas em nicho. O tecido pesado não combina com calor de quarenta graus no asfalto de Copacabana. Para quem quer fotogênico à noite na orla, talvez. Para quem nada de manhã, é suor acumulado antes do segundo mergulho.